Por Sebastião Azevedo
SENHOR SEBASTIÃO AZEVEDO EM UMA VISTA AO RELÓGIO DA MATRIZ DE SANTANA DO ACARAÚ
O relógio da matriz de Santana do Acaraú veio de Paris, de navio, até Fortaleza; e de Fortaleza até Santana em carro de boi.
Chegou à Santana na tarde do dia 05 de novembro de 1905, sendo recebido e posto na torre da Matriz com grande alegria na mesma tarde.
Foi doado pelo Sr. Francisco de Assis Vasconcelos, custou cinco mil réis e teve como responsáveis por sua corda e manutenção uma sucessão de homens de uma mesma família: os Monte.
Sua primeira corda foi dada pelo Sr. João do Monte, a fim de que o mesmo soasse, nas terras de Senhora Sant’Ana, cinco horas da tarde.
Ficou o Senhor João nesta função por vinte e cinco anos, transmitindo-a ao filho Antônio Tibiriçá do Monte que era conhecido na cidade pelo codinome de mestre caboclo.
Mestre Caboclo exerceu este ofício por 26 anos e o transmitiu ao irmão Joaquim Jacaúna do Monte, que por sua vez, o exerceu durante 25 anos, passando a missão ao filho Sebastião Azevedo que, no mesmo ofício trabalhou durante 18 anos.
Quando Sebastião Azevedo passou o ofício, exercido pelos homens da família a 94 anos, ao filho José Wellington Azevedo, uma determinação paroquial interrompeu esta linha sucessória de guardiões do relógio matriz, passando os cuidados do mesmo ao Sacristão.
segunda-feira, 7 de março de 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
ÍNDIOS NA HISTÓRIA DE SANTANA DO ACARAÚ
A historiografia brasileira é marcada por um grave silêncio a cerca dos povos autóctones. Desde muito cedo o colonizador português fez referência a estes como bárbaros e cruéis, chegando a descrevê-los como animais.
O fato de nossas sociedades autóctones não terem deixado nenhum relato escrito sobre seu contato com os europeus e sobre a violência destes sofrida, fez com que as elites produzissem uma idéia de que a colonização brasileira foi mais pacífica que a da América espanhola e que em certa altura da história os índios deixaram de existir ou porque foram dizimados em conflitos armados ou porque deram lugar a indivíduos oriundos da miscigenação (Leonardi,1996).
Isto é observável no que diz respeito a índios denominados Areriús, citados como os primitivos habitantes da ribeira do Acaraú. A historiografia a cerca deles é pontual, imprecisa, como ocorre nos demais casos.
Os Areriús (também chamados de Reriús, Irariús, Irarijús, Arariús, Arearús e por outras mais corruptelas) fazem parte de uma família étnica que inclui em si dez tribos: os Tarairiús. Seu território, conforme Filho (1962), se estendia das extremidades das praias do Rio Grande do Norte até os sertões do Piauí e do Ceará, aonde chegavam a ocupar porções de terra dentro dos territórios dos Tremembé, dos Jês e dos Cariris.
Os Tarairiús praticavam nomadismo dentro de seu próprio território, movidos pelas necessidades do inverno ou da estiagem. Viviam da caça, da pesca, da coleta e do cultivo de alguns legumes. Faziam uso de vasos e outros utensílios de pedra. Podiam ser polígamos, eram endocanibalistas (praticavam canibalismo apenas com os de sua tribo como crianças que nasciam mortas, idosos, com o cacique e o pajé ao morrerem) e extremamente belicosos (FILHO,1962.)
Particularmente os Areriús habitavam as serras distantes oito léguas da Ibiapaba no sentido do nascente, e a bacia do rio Acaraú. Eram governados por quatro chefes e se diferenciavam dos demais Tarairiús por não serem polígamos e nem canibais. Um trecho da carta Ânua do padre Ascenso Gago, de 1695, nos afirma isto:
Já fiz aviso a vossa Reverência como tínhamos agregado à missão a nação tapuia reriú. Habita esta nação outra serra de penedia alta e fragosa, que dista da serra da Ibiapaba oito léguas, porém pequena em comparação dela, porque terá de comprimento seis léguas somente. É esta nação gente de corso. Há entre eles quatro principais pelos quais estão repartidos os vassalos, a saber: o Principal Timicu, o Principal Coió, o Principal Arapá e o Principal Guarará. Descem a fazer suas correrias pelos campos à caça e ao mel, e se tornam a recolher à sua serra. Não comem carne humana, bebem pouco, casam as filhas depois dos quinze anos de idade, costume geral dos Tapuias desta costa, não tem mais que uma mulher, à qual costumam repudiar alguma vez, principalmente se é preguiçosa. É nação belicosa e muito valente (LEITE, 1943).
No ano de 1675, portanto vinte anos antes, os índios Areriús sofreram fortíssima guerra na época de Bento Macedo, sendo muitos deles mortos e seus filhos e mulheres reduzidos ao cativeiro. (ARAÚJO,1979).
Ainda conforme Araújo (2000) estes índios foram aldeados, em 1712, na serra da Meruoca, sob a direção do Padre José Teixeira de Miranda.
No livro O Município de Santana, estes índios aparecem, no contexto de uma rebelião, em 1713, “afligindo” os moradores da ribeira do Acaraú, “expulsando-os de suas fazendas” rumo à Ibiapaba. Embora o autor não cite a fonte da notícia, esta foi retirada de um artigo de Studart Filho para a Revista do Instituto Histórico Antropológico e Geográfico do Ceará: A Rebelião de 1713. Vejamos o que é dito a respeito destes índios no referido artigo:
Tomam armas contra os colonizadores os Acriús e os Tremembés que malgrado a situação de vassalos de S.M. não haviam perdido o ânimo belicoso e seus rancores contra os luso-brasileiros. Amotinaram-se igualmente os Areriús que assolaram os moradores da ribeira do Acaraú e correram seu missionário a tiros.
O desfecho deste conflito para os Areriús é assim descrito por Studart Filho:
Mais animadora, porém, a carta escrita pelo senado da Câmara daquela vila, ao Des. Cristóvão Soares Reimão, em 8 de fevereiro de 1714. Nela se assegura que, no conflito armado, ocorrido no ano anterior entre moradores e Areriús, estes haviam perdido muita gente e deles já poucos existiam.
Como vimos, a historiografia brasileira produziu acerca dos povos autóctones do Brasil muito mais silêncio do que o espaço para que estes contassem sua história. Tal silêncio foi produzido para criar-se a noção de Estado uno tanto no território (conquistado, ao contrário do que muitos pensam, "a ferro, fogo e sangue") quanto no povo, este último oriundo da "mistura de raças", termo criado para silenciar e apagar a identidade dos vários povos autóctones de nossa terra.
Assim sendo, na história do município cearense de Santana do Acaraú, o fenômeno não poderia ser diferente. Quando falamos sobre índios na história da cidade muitos são os que afirmam que cá nunca houve índios e há quem diga que o território do município tenha servido somente como passagem para os índios que moravam nas serras circunvizinhas e nas praias próximas.
Os registros da historia local, contudo, quando reunidos, mesmo que de forma incipiente, contrariam estes pensamentos e mostram que muitos de nossos "avós” indígenas foram escondidos sob um véu silencioso e tecido de interesses dos homens brancos.
O primeiro explorador branco que dá notícia de sua posse de terras no território que mais tarde corresponderia ao de Santana foi Manoel de Góes de Vasconcelos. Na petição de Sesmaria que fez com outros companheiros relata que tomou posse desta terra após sofrer ataque de tapuios Bárbaros como vemos na citação deste trecho da mesma:
"Dizem Manuel de Góes o lesensiado Fernando de Goez Francisco Pereira lima Manoel de almei de Almeida da Ruda o lesensiado Amaro Fernandez de Abreu Estevão de Figueredo Simão de Goez de Vasconcellos, moradorez na capitania de Pernambuco e assistentes nesta Capitania do Ceara que porque não tem na dita Capitania de Pernambuco terras próprias capazes pêra a cantidade de suas criasõins de gado vacum e cavalar os vieram comboiando athesta Capitania por distamsia de duzentas léguoas de matos fechados e terras de Tapuyos bárbaros com muito dispêndio de suas fazendas (...). (DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA CEARENSE- SESMARIAS – n°36 Vol. I)
No livro o Município de Santana, uma compilação de folhetins produzidos pelo jornal dirigido pelo Advogado José Mendes de Vasconcelos, encontram-se duas citações importantes, embora muito pontuais, sobre a presença indígena na história da cidade. Na descrição romanesca que os autores fazem da fazenda do padre Antônio dos Santos da Silveira, fundador da cidade:
"Alli tudo era simples, sêm outro encanto que não fosse o da naturesa: havia uma pequena casa de taipa reconstruida, residencia do proprietário, e um curral de madeiras reedificado; de lado, duas choças cobertas de palhas de carnaúba, em que se albergavam duas famílias de índios domesticados, incumbidos da vaqueirice......"(O Município de Sant'Anna, página 62, 5º parágrafo).
Durante a construção da Capela em honra à Santa Ana conforme vemos em outro trecho:
"Alguns indios se offerecerão para o trabalho; e da sua admnistração se encarregára Antonio Coelho de Albuquerque” (O Município de Sant'Anna, página 69, parágrafo 2º)
Nos registros da Diocese de Sobral encontramos este interessante trecho deste assento de casamento:
Aos vinte e hum de Mayo de mil setecentos e quarenta e oito em a capella de S.Anna corridoz os banhos nesta freguesia sem impedimento em presenza do padre Antonio dos santos de minha licenza se receberão por palavras de presente Antonio do gentio de guinê e Cathirina Tapuya escravos de Antonio Coelho... (Livro um da Diocese de Sobral, casamentos, 1741 - 1769 fls 111vs)
Ora este assento nos mostra três coisas importantes: o casamento "inter-racial" promovido pelos donos de escravos para "miscigenar" e tentar apagar a presença e a identidade dos povos indígenas, mostra-nos Padre Silveira o fundador da cidade realizando um casamento deste gênero na capela que erigiu e que Antônio Coelho de Albuquerque, um influente Capitão (de patente comprada) na cidade de Sobral era senhor de escravos africanos e indígenas.
A família Pereira de Santana do Acaraú, conforme relato de Rosa Eronildes Pereira, membro desta, tem como ancestral mais antiga uma índia de codinome “Capoeira” que se unindo a um português de sobrenome Pereira deu origem a referida família.
O mito passado de geração em geração em sua família é o seguinte: estando o Português Pereira a explorar terras no serrote do Mucuripe, viu a índia banhando-se em uma nascente. Decidindo tê-la por mulher, “caçou-a a dente de cachorro”, amarrou-a, colocou-a em sua montaria e a levou para casa para domesticá-la.
Dona Rosa assim nos descreveu parte da sua árvore genealógica:
(?) Araújo c.c. índia Capoeira.
Filho do casal: Manoel José de Vasconcelos c. c. Theodora Ignácia de Araújo.
Filho de Manoel: José Joaquim de Araújo.
1º casamento deste: José Joaquim de Araújo c. c. Theresa Idalina de Maria Vasconcellos.
2º casamento deste: José Joaquim de Araújo c. c. Maria Catharina de Vaconcellos.
Deste matrimonio nasceu Theodora Cristina de Araújo que casou com José Pereira de Vasconcellos Filho.
Buscando assentos de batismo e casamento dos membros desta árvore genealógica, encontramos os seguintes:
“Aos desesseis de Agosto de mil oitocentos setenta e tres, feitas as denunciações sem impedimento, em presença do Reverendo Francisco Theótime de Maria Vasconcellos, de licença do Reverendo Diôgo José de Sousa Lima, por mim auctorisado, e perante as testemunhas Manoel Ferreira de Vasconcellos e Raymundo Araujo de Maria Vasconcellos, unirão – se em matrimonio José Joaquim de Araujo de Maria, filho legítimo de Manoel José de Vasconcellos, e D. Theodora Ignacia de Araújo, com D. Theresa Idalina de Maria Vasconcellos, filha legítima de João Pedro de Maria Vasconcellos, e D. Maria Lourença da frota ambos naturaes e moradores nesta freguesia e logo lhes deo as bênçãos nupciaes na forma do ritual romano, do que para constar mandei fazer este assento em que me assino.”
Vigário collado Francisco Xavier Nogueira.
(Livro de casamentos da Diocese de Sobral, freguezia de Santana – Licânia, fl. 308, lv. 02 1852 a 1885).
“Aos oito de janeiro de mil oitocentos e oitenta e um, em minha prezença e sendo testemunhas Raimundo Araújo de Vasconcellos e Miguel Araújo de Vasconcellos contrahio matrimonio José Joaquim de Araújo viúvo que ficou por fallecimento de Thereza Idalina da Frota, com Maria Catharina de Vaconcellos filha legítima de José Mendes de Vasconcelos e de Francisca Soares de Vasconcellos, ambos naturaes e moradores nesta freguezia; despensados do parentesco que os ligavão, e logo lhes foram dadas as bênçãos nupciaes na forma do Ritual, do que para constar mandei fazer este assento que asigno.”
Vigário collado Francisco Xavier Nogueira.
(Livro de casamentos da Diocese de Sobral, freguezia de Santana – Licânia, fl. 378, lv. 02 1852 a 1885).
“THEODORA, filha legítima de José Joaquim d’Araujo de Vaconcellos e de Maria Catharina d’Araujo , nasceo à vinte nove de janeiro de mil oitocentos e oitenta e dois, e foi por mim solemnente baptizada nesta matriz à cinco de Maio do dito ano; sendo padrinhos Miguel Araújo de Vaconcellos, e Francisca Cândida d’Araújo; do que para constar fiz este assento que assino.”
Vigário collado Francisco Xavier Nogueira.
(Livro de Batismos de Santana do Acaraú, Diocese de Sobral, fl. 94, lv. 08 1878 a 1885).
Buscando subir pela ascendência desta árvore genealógica não nos foi possível encontrar algum documento relativo ao casal que foi tronco da família Pereira.
Outra memória que nos foi relatada foi a do Senhor Pedro Celestino Santos, conhecido na cidade como Pedro Caboclo, alcunha dada não só a este, mas a toda a sua família a várias gerações.
Sabe-se que o termo Caboclo foi utilizado para apagar, em muitos assentos de batismo e casamentos, os descendentes de indígenas sobre o véu da miscigenação.
O mito sobre a origem de sua família assim nos foi descrito pelo Senhor Pedro: escondendo-se da polícia no Serrote do Mucuripe, seu avô: Miguel de Brito do Nascimento, encontrou uma índia que se banhava nas nascentes do mesmo. Caçando-a “a dente de cachorro”, prendeu-lhe uma argola no tendão do calcanhar, a fim de prendê-la e domesticá-la.
Vindo a casar-se com a mesma, este deu origem à família dos caboclos. Este é o assento de casamento dos mesmos:
Aos vinte e dois dias do mês de Maio do anno de mil oitocentos e noventa as cinco horas da tarde n’esta Igreja parochial da freguesia de Sant’Anna do Bispado do ceará, comparecerão em minha presença os nubentes Miguel Pereira de Brito e Joaquina Maria da Conceição elle filho legítimo de Ignacio Rufino dos Santos, e de Maria Francisca Sousa, falecida, naturais e moradores n’esta Freguesia, em tudo habilitados segundo o direito, elle em idade de vinte e quatro anos, ella de vinte e quatro, e se receberão por marido e mulher, com palavras de presente, e logo lhes dei as bênçãos nupciaes segundo o rito da santa Igreja Catholica, sendo testemunhas Francisco José Monteiro, e Antonio Francisco do Nascimento que conheço pelos próprios. E para constar lavrei este termo, que depois de lido, assigno com as testemunhas. Arrogo Francisco José Monteiro e Antonio ferreira do Nascimento, José Ferreira de Maria e Luiz Brandão.
Vigario collado Francisco Xavier Nogueira
(Livro de casamentos de Santana do Acaraú, 1890 - 1902, Diocese de Sobral)
Não há no referido assento menção aos pais da noiva. Embora a família tenha por alcunha o nome de Caboclo, o termo não aparece no assento.
Uma coisa em comum deve ser observada nas duas histórias familiares: as duas capturas ocorrem no mesmo local: o Serrote do Mucuripe.
A referência discreta e pontual a índios e ao serrote do Mucuripe, também se encontra na obra do escritor Santanense José Alcídes Pinto: Os Verdes Abutres da Colina. O referido autor construiu seu realismo fantástico tendo por base o mito fundador do distrito santanense de Parapuí, localizado ao sopé do referido serrote.
O povo, através da oralidade, conservou a história do Coronel Antônio José Nunes Viana e da sua mulher, índia e cativa.
Este vindo de Portugal em 1820, aos vinte anos, em um navio, como clandestino, foi lançado no mar, na barra do Acaraú, para morrer. Sobrevivendo, porém, encontrou abrigo na casa de um pescador, onde refez as forças e de onde seguiu, após orientação do pescador, para Almofala, aldeamento dos índios Tremembé. Lá, raptou uma índia de dez anos e com esta fugiu para as terras que hoje correspondem ao território do referido distrito Santanense, onde gerou grande prole com a mesma.
Na obra de José Alcídes Pinto vê-se um eco da historiografia, uma reprodução do português como desbravador e explorador, como um novo adão que veio para dar início a civilização numa terra onde tudo estava por começar e que devia ser povoada por gente que trouxesse o gérmen do “garanhão luso”.
Uma última memória que coletamos faz parte da história da localidade Santanense denominada Chora. Moradores idosos desta localidade nos relataram que muitos comboieiros desta, que levavam à Almofala os produtos das fazendas para venda (farinha, rapadura, coalhos, queijo, etc.), casaram - se com índias Tremembé e, mulheres do Chora casaram-se com índios Tremembé.
Perguntando a um casal de índios Tremembé, octogenários: Senhor Geraldo Cabral (Geraldo Biinha) e Maria Cabral (Maria Biinha), moradores na comunidade Tremembé de Mangue Alto, em Almofala, se conheciam um lugar na região chamado Chora, estes nos confirmaram as histórias contadas pelos moradores da localidade santanense e para que não houvesse dúvida se a localidade a que se referia era santanense ou não, nos citou nomes de um casal: Raimunda Nonata Romão, filha de Miguel Lourenço (comboieiro) e Manuel Henriques, reconhecido pela comunidade indígena como Tremembé.
Todo este material supracitado está registrado em entrevista que nos foi concedida pelo referido casal e por moradores do Chora.
A família da noiva, os Romão, é a família da qual faz parte também meu bisavô paterno e minha avó paterna. Esta última razão dá fé suficiente a esta história.
Por esses e outros argumentos, vemos que nossa história precisa ser revisitada e reelaborada para dar voz aos nossos antepassados indígenas e cresça em nós o respeito a esses povos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAÚJO,Fco Sadoc de, Cronologia Sobralense,Imprensa Universitária UVA Vol I 1979
ARAÚJO,Fco Sadoc de, Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú, UVA Edições, 2000, Sobral – CE
DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA CEARENSE- SESMARIAS – n°36 Vol. I
FILHO,Carlos Studart, Revista do Instituto Histórico do Ceará 1962, p.56 a 62
FILHO,Carlos Studart,A Rebelião de 1713, Revista do Instituto Histórico do Ceará.
Leonardi, Victor; Entre árvores e esquecimentos, história social nos sertões do Brasil Editora UNB,1996
LEITE,Serafim, SJ, História da Companhia de Jesus no Brasil, Vol III, imprensa Nacional, Rio, 1943
Livro 1 da Diocese de Sobral, casamentos, 1741 - 1769, fls 111 vs
Livro 2 da Diocese de Sobral, casamentos, 1852 a 1885, fl. 308
Livro 2 da Diocese de Sobral, casamentos, 1852 a 1885, fl. 378
Livro de Batismos de Santana do Acaraú, Diocese de Sobral, fl. 94, lv. 08, 1878 a 1885
Livro de Casamentos de Santana do Acaraú, 1890 - 1902, Diocese de Sobral
O MUNICÍPIO DE SANT'ANNA, 1926, Imprensa do Correio Sobralense, págs 62 e 69
O fato de nossas sociedades autóctones não terem deixado nenhum relato escrito sobre seu contato com os europeus e sobre a violência destes sofrida, fez com que as elites produzissem uma idéia de que a colonização brasileira foi mais pacífica que a da América espanhola e que em certa altura da história os índios deixaram de existir ou porque foram dizimados em conflitos armados ou porque deram lugar a indivíduos oriundos da miscigenação (Leonardi,1996).
Isto é observável no que diz respeito a índios denominados Areriús, citados como os primitivos habitantes da ribeira do Acaraú. A historiografia a cerca deles é pontual, imprecisa, como ocorre nos demais casos.
Os Areriús (também chamados de Reriús, Irariús, Irarijús, Arariús, Arearús e por outras mais corruptelas) fazem parte de uma família étnica que inclui em si dez tribos: os Tarairiús. Seu território, conforme Filho (1962), se estendia das extremidades das praias do Rio Grande do Norte até os sertões do Piauí e do Ceará, aonde chegavam a ocupar porções de terra dentro dos territórios dos Tremembé, dos Jês e dos Cariris.
Os Tarairiús praticavam nomadismo dentro de seu próprio território, movidos pelas necessidades do inverno ou da estiagem. Viviam da caça, da pesca, da coleta e do cultivo de alguns legumes. Faziam uso de vasos e outros utensílios de pedra. Podiam ser polígamos, eram endocanibalistas (praticavam canibalismo apenas com os de sua tribo como crianças que nasciam mortas, idosos, com o cacique e o pajé ao morrerem) e extremamente belicosos (FILHO,1962.)
Particularmente os Areriús habitavam as serras distantes oito léguas da Ibiapaba no sentido do nascente, e a bacia do rio Acaraú. Eram governados por quatro chefes e se diferenciavam dos demais Tarairiús por não serem polígamos e nem canibais. Um trecho da carta Ânua do padre Ascenso Gago, de 1695, nos afirma isto:
Já fiz aviso a vossa Reverência como tínhamos agregado à missão a nação tapuia reriú. Habita esta nação outra serra de penedia alta e fragosa, que dista da serra da Ibiapaba oito léguas, porém pequena em comparação dela, porque terá de comprimento seis léguas somente. É esta nação gente de corso. Há entre eles quatro principais pelos quais estão repartidos os vassalos, a saber: o Principal Timicu, o Principal Coió, o Principal Arapá e o Principal Guarará. Descem a fazer suas correrias pelos campos à caça e ao mel, e se tornam a recolher à sua serra. Não comem carne humana, bebem pouco, casam as filhas depois dos quinze anos de idade, costume geral dos Tapuias desta costa, não tem mais que uma mulher, à qual costumam repudiar alguma vez, principalmente se é preguiçosa. É nação belicosa e muito valente (LEITE, 1943).
No ano de 1675, portanto vinte anos antes, os índios Areriús sofreram fortíssima guerra na época de Bento Macedo, sendo muitos deles mortos e seus filhos e mulheres reduzidos ao cativeiro. (ARAÚJO,1979).
Ainda conforme Araújo (2000) estes índios foram aldeados, em 1712, na serra da Meruoca, sob a direção do Padre José Teixeira de Miranda.
No livro O Município de Santana, estes índios aparecem, no contexto de uma rebelião, em 1713, “afligindo” os moradores da ribeira do Acaraú, “expulsando-os de suas fazendas” rumo à Ibiapaba. Embora o autor não cite a fonte da notícia, esta foi retirada de um artigo de Studart Filho para a Revista do Instituto Histórico Antropológico e Geográfico do Ceará: A Rebelião de 1713. Vejamos o que é dito a respeito destes índios no referido artigo:
Tomam armas contra os colonizadores os Acriús e os Tremembés que malgrado a situação de vassalos de S.M. não haviam perdido o ânimo belicoso e seus rancores contra os luso-brasileiros. Amotinaram-se igualmente os Areriús que assolaram os moradores da ribeira do Acaraú e correram seu missionário a tiros.
O desfecho deste conflito para os Areriús é assim descrito por Studart Filho:
Mais animadora, porém, a carta escrita pelo senado da Câmara daquela vila, ao Des. Cristóvão Soares Reimão, em 8 de fevereiro de 1714. Nela se assegura que, no conflito armado, ocorrido no ano anterior entre moradores e Areriús, estes haviam perdido muita gente e deles já poucos existiam.
Como vimos, a historiografia brasileira produziu acerca dos povos autóctones do Brasil muito mais silêncio do que o espaço para que estes contassem sua história. Tal silêncio foi produzido para criar-se a noção de Estado uno tanto no território (conquistado, ao contrário do que muitos pensam, "a ferro, fogo e sangue") quanto no povo, este último oriundo da "mistura de raças", termo criado para silenciar e apagar a identidade dos vários povos autóctones de nossa terra.
Assim sendo, na história do município cearense de Santana do Acaraú, o fenômeno não poderia ser diferente. Quando falamos sobre índios na história da cidade muitos são os que afirmam que cá nunca houve índios e há quem diga que o território do município tenha servido somente como passagem para os índios que moravam nas serras circunvizinhas e nas praias próximas.
Os registros da historia local, contudo, quando reunidos, mesmo que de forma incipiente, contrariam estes pensamentos e mostram que muitos de nossos "avós” indígenas foram escondidos sob um véu silencioso e tecido de interesses dos homens brancos.
O primeiro explorador branco que dá notícia de sua posse de terras no território que mais tarde corresponderia ao de Santana foi Manoel de Góes de Vasconcelos. Na petição de Sesmaria que fez com outros companheiros relata que tomou posse desta terra após sofrer ataque de tapuios Bárbaros como vemos na citação deste trecho da mesma:
"Dizem Manuel de Góes o lesensiado Fernando de Goez Francisco Pereira lima Manoel de almei de Almeida da Ruda o lesensiado Amaro Fernandez de Abreu Estevão de Figueredo Simão de Goez de Vasconcellos, moradorez na capitania de Pernambuco e assistentes nesta Capitania do Ceara que porque não tem na dita Capitania de Pernambuco terras próprias capazes pêra a cantidade de suas criasõins de gado vacum e cavalar os vieram comboiando athesta Capitania por distamsia de duzentas léguoas de matos fechados e terras de Tapuyos bárbaros com muito dispêndio de suas fazendas (...). (DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA CEARENSE- SESMARIAS – n°36 Vol. I)
No livro o Município de Santana, uma compilação de folhetins produzidos pelo jornal dirigido pelo Advogado José Mendes de Vasconcelos, encontram-se duas citações importantes, embora muito pontuais, sobre a presença indígena na história da cidade. Na descrição romanesca que os autores fazem da fazenda do padre Antônio dos Santos da Silveira, fundador da cidade:
"Alli tudo era simples, sêm outro encanto que não fosse o da naturesa: havia uma pequena casa de taipa reconstruida, residencia do proprietário, e um curral de madeiras reedificado; de lado, duas choças cobertas de palhas de carnaúba, em que se albergavam duas famílias de índios domesticados, incumbidos da vaqueirice......"(O Município de Sant'Anna, página 62, 5º parágrafo).
Durante a construção da Capela em honra à Santa Ana conforme vemos em outro trecho:
"Alguns indios se offerecerão para o trabalho; e da sua admnistração se encarregára Antonio Coelho de Albuquerque” (O Município de Sant'Anna, página 69, parágrafo 2º)
Nos registros da Diocese de Sobral encontramos este interessante trecho deste assento de casamento:
Aos vinte e hum de Mayo de mil setecentos e quarenta e oito em a capella de S.Anna corridoz os banhos nesta freguesia sem impedimento em presenza do padre Antonio dos santos de minha licenza se receberão por palavras de presente Antonio do gentio de guinê e Cathirina Tapuya escravos de Antonio Coelho... (Livro um da Diocese de Sobral, casamentos, 1741 - 1769 fls 111vs)
Ora este assento nos mostra três coisas importantes: o casamento "inter-racial" promovido pelos donos de escravos para "miscigenar" e tentar apagar a presença e a identidade dos povos indígenas, mostra-nos Padre Silveira o fundador da cidade realizando um casamento deste gênero na capela que erigiu e que Antônio Coelho de Albuquerque, um influente Capitão (de patente comprada) na cidade de Sobral era senhor de escravos africanos e indígenas.
A família Pereira de Santana do Acaraú, conforme relato de Rosa Eronildes Pereira, membro desta, tem como ancestral mais antiga uma índia de codinome “Capoeira” que se unindo a um português de sobrenome Pereira deu origem a referida família.
O mito passado de geração em geração em sua família é o seguinte: estando o Português Pereira a explorar terras no serrote do Mucuripe, viu a índia banhando-se em uma nascente. Decidindo tê-la por mulher, “caçou-a a dente de cachorro”, amarrou-a, colocou-a em sua montaria e a levou para casa para domesticá-la.
Dona Rosa assim nos descreveu parte da sua árvore genealógica:
(?) Araújo c.c. índia Capoeira.
Filho do casal: Manoel José de Vasconcelos c. c. Theodora Ignácia de Araújo.
Filho de Manoel: José Joaquim de Araújo.
1º casamento deste: José Joaquim de Araújo c. c. Theresa Idalina de Maria Vasconcellos.
2º casamento deste: José Joaquim de Araújo c. c. Maria Catharina de Vaconcellos.
Deste matrimonio nasceu Theodora Cristina de Araújo que casou com José Pereira de Vasconcellos Filho.
Buscando assentos de batismo e casamento dos membros desta árvore genealógica, encontramos os seguintes:
“Aos desesseis de Agosto de mil oitocentos setenta e tres, feitas as denunciações sem impedimento, em presença do Reverendo Francisco Theótime de Maria Vasconcellos, de licença do Reverendo Diôgo José de Sousa Lima, por mim auctorisado, e perante as testemunhas Manoel Ferreira de Vasconcellos e Raymundo Araujo de Maria Vasconcellos, unirão – se em matrimonio José Joaquim de Araujo de Maria, filho legítimo de Manoel José de Vasconcellos, e D. Theodora Ignacia de Araújo, com D. Theresa Idalina de Maria Vasconcellos, filha legítima de João Pedro de Maria Vasconcellos, e D. Maria Lourença da frota ambos naturaes e moradores nesta freguesia e logo lhes deo as bênçãos nupciaes na forma do ritual romano, do que para constar mandei fazer este assento em que me assino.”
Vigário collado Francisco Xavier Nogueira.
(Livro de casamentos da Diocese de Sobral, freguezia de Santana – Licânia, fl. 308, lv. 02 1852 a 1885).
“Aos oito de janeiro de mil oitocentos e oitenta e um, em minha prezença e sendo testemunhas Raimundo Araújo de Vasconcellos e Miguel Araújo de Vasconcellos contrahio matrimonio José Joaquim de Araújo viúvo que ficou por fallecimento de Thereza Idalina da Frota, com Maria Catharina de Vaconcellos filha legítima de José Mendes de Vasconcelos e de Francisca Soares de Vasconcellos, ambos naturaes e moradores nesta freguezia; despensados do parentesco que os ligavão, e logo lhes foram dadas as bênçãos nupciaes na forma do Ritual, do que para constar mandei fazer este assento que asigno.”
Vigário collado Francisco Xavier Nogueira.
(Livro de casamentos da Diocese de Sobral, freguezia de Santana – Licânia, fl. 378, lv. 02 1852 a 1885).
“THEODORA, filha legítima de José Joaquim d’Araujo de Vaconcellos e de Maria Catharina d’Araujo , nasceo à vinte nove de janeiro de mil oitocentos e oitenta e dois, e foi por mim solemnente baptizada nesta matriz à cinco de Maio do dito ano; sendo padrinhos Miguel Araújo de Vaconcellos, e Francisca Cândida d’Araújo; do que para constar fiz este assento que assino.”
Vigário collado Francisco Xavier Nogueira.
(Livro de Batismos de Santana do Acaraú, Diocese de Sobral, fl. 94, lv. 08 1878 a 1885).
Buscando subir pela ascendência desta árvore genealógica não nos foi possível encontrar algum documento relativo ao casal que foi tronco da família Pereira.
Outra memória que nos foi relatada foi a do Senhor Pedro Celestino Santos, conhecido na cidade como Pedro Caboclo, alcunha dada não só a este, mas a toda a sua família a várias gerações.
Sabe-se que o termo Caboclo foi utilizado para apagar, em muitos assentos de batismo e casamentos, os descendentes de indígenas sobre o véu da miscigenação.
O mito sobre a origem de sua família assim nos foi descrito pelo Senhor Pedro: escondendo-se da polícia no Serrote do Mucuripe, seu avô: Miguel de Brito do Nascimento, encontrou uma índia que se banhava nas nascentes do mesmo. Caçando-a “a dente de cachorro”, prendeu-lhe uma argola no tendão do calcanhar, a fim de prendê-la e domesticá-la.
Vindo a casar-se com a mesma, este deu origem à família dos caboclos. Este é o assento de casamento dos mesmos:
Aos vinte e dois dias do mês de Maio do anno de mil oitocentos e noventa as cinco horas da tarde n’esta Igreja parochial da freguesia de Sant’Anna do Bispado do ceará, comparecerão em minha presença os nubentes Miguel Pereira de Brito e Joaquina Maria da Conceição elle filho legítimo de Ignacio Rufino dos Santos, e de Maria Francisca Sousa, falecida, naturais e moradores n’esta Freguesia, em tudo habilitados segundo o direito, elle em idade de vinte e quatro anos, ella de vinte e quatro, e se receberão por marido e mulher, com palavras de presente, e logo lhes dei as bênçãos nupciaes segundo o rito da santa Igreja Catholica, sendo testemunhas Francisco José Monteiro, e Antonio Francisco do Nascimento que conheço pelos próprios. E para constar lavrei este termo, que depois de lido, assigno com as testemunhas. Arrogo Francisco José Monteiro e Antonio ferreira do Nascimento, José Ferreira de Maria e Luiz Brandão.
Vigario collado Francisco Xavier Nogueira
(Livro de casamentos de Santana do Acaraú, 1890 - 1902, Diocese de Sobral)
Não há no referido assento menção aos pais da noiva. Embora a família tenha por alcunha o nome de Caboclo, o termo não aparece no assento.
Uma coisa em comum deve ser observada nas duas histórias familiares: as duas capturas ocorrem no mesmo local: o Serrote do Mucuripe.
A referência discreta e pontual a índios e ao serrote do Mucuripe, também se encontra na obra do escritor Santanense José Alcídes Pinto: Os Verdes Abutres da Colina. O referido autor construiu seu realismo fantástico tendo por base o mito fundador do distrito santanense de Parapuí, localizado ao sopé do referido serrote.
O povo, através da oralidade, conservou a história do Coronel Antônio José Nunes Viana e da sua mulher, índia e cativa.
Este vindo de Portugal em 1820, aos vinte anos, em um navio, como clandestino, foi lançado no mar, na barra do Acaraú, para morrer. Sobrevivendo, porém, encontrou abrigo na casa de um pescador, onde refez as forças e de onde seguiu, após orientação do pescador, para Almofala, aldeamento dos índios Tremembé. Lá, raptou uma índia de dez anos e com esta fugiu para as terras que hoje correspondem ao território do referido distrito Santanense, onde gerou grande prole com a mesma.
Na obra de José Alcídes Pinto vê-se um eco da historiografia, uma reprodução do português como desbravador e explorador, como um novo adão que veio para dar início a civilização numa terra onde tudo estava por começar e que devia ser povoada por gente que trouxesse o gérmen do “garanhão luso”.
Uma última memória que coletamos faz parte da história da localidade Santanense denominada Chora. Moradores idosos desta localidade nos relataram que muitos comboieiros desta, que levavam à Almofala os produtos das fazendas para venda (farinha, rapadura, coalhos, queijo, etc.), casaram - se com índias Tremembé e, mulheres do Chora casaram-se com índios Tremembé.
Perguntando a um casal de índios Tremembé, octogenários: Senhor Geraldo Cabral (Geraldo Biinha) e Maria Cabral (Maria Biinha), moradores na comunidade Tremembé de Mangue Alto, em Almofala, se conheciam um lugar na região chamado Chora, estes nos confirmaram as histórias contadas pelos moradores da localidade santanense e para que não houvesse dúvida se a localidade a que se referia era santanense ou não, nos citou nomes de um casal: Raimunda Nonata Romão, filha de Miguel Lourenço (comboieiro) e Manuel Henriques, reconhecido pela comunidade indígena como Tremembé.
Todo este material supracitado está registrado em entrevista que nos foi concedida pelo referido casal e por moradores do Chora.
A família da noiva, os Romão, é a família da qual faz parte também meu bisavô paterno e minha avó paterna. Esta última razão dá fé suficiente a esta história.
Por esses e outros argumentos, vemos que nossa história precisa ser revisitada e reelaborada para dar voz aos nossos antepassados indígenas e cresça em nós o respeito a esses povos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAÚJO,Fco Sadoc de, Cronologia Sobralense,Imprensa Universitária UVA Vol I 1979
ARAÚJO,Fco Sadoc de, Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú, UVA Edições, 2000, Sobral – CE
DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA CEARENSE- SESMARIAS – n°36 Vol. I
FILHO,Carlos Studart, Revista do Instituto Histórico do Ceará 1962, p.56 a 62
FILHO,Carlos Studart,A Rebelião de 1713, Revista do Instituto Histórico do Ceará.
Leonardi, Victor; Entre árvores e esquecimentos, história social nos sertões do Brasil Editora UNB,1996
LEITE,Serafim, SJ, História da Companhia de Jesus no Brasil, Vol III, imprensa Nacional, Rio, 1943
Livro 1 da Diocese de Sobral, casamentos, 1741 - 1769, fls 111 vs
Livro 2 da Diocese de Sobral, casamentos, 1852 a 1885, fl. 308
Livro 2 da Diocese de Sobral, casamentos, 1852 a 1885, fl. 378
Livro de Batismos de Santana do Acaraú, Diocese de Sobral, fl. 94, lv. 08, 1878 a 1885
Livro de Casamentos de Santana do Acaraú, 1890 - 1902, Diocese de Sobral
O MUNICÍPIO DE SANT'ANNA, 1926, Imprensa do Correio Sobralense, págs 62 e 69
A CIDADE EM 1884
Uma descrição da cidade de Santana nos idos de 1884 nos chega através do livro O Município de Santana.
Concluímos que a descrição refere-se a esta data porque, como veremos mais adiante, ao fazer referência ao sobrado do comerciante Francisco Leôncio de Andrade, o autor do supracitado livro diz que o mesmo já falecera há doze anos.
Padre Sadoc Araújo em sua Cronologia Sobralense afirma que o dito comerciante faleceu em 1872. Se, portanto, somarmos o ano de falecimento do referido senhor, com a quantidade supracitada teremos o ano a que nos referimos.
Vejamos o que diz a célebre coleção de folhetins.
Segunda a mesma, na época, a cidade: (...). "Divide-se em dois bairros – de S. Anna e S. João – os quaes se acham ligados por uma ponte de sólida construcção que mede 106 metros de comprimento sobre 3 de largura, aberta no centro de 3 arcadas, que proporcionam espaçoso e livre trânsito". (O Município de sant’Anna, página 189, 1º parágrafo)
"Eis-nos chegados, caros leitores, às portas da cidade. Comecemos o nosso passeio pelo bairro de Sant’Anna. A primeira rua, que vemos, denomina-se Humaytá; a sua linha curva segue outra de arvoredos; e alli; naquella casa de apparencia risonha, defronte daquela frondosa cana – fistula, está o Santuário de Guttemberg. Vejamos o que nos diz a sua inscripção: - Foi no dia 10 de Fevereiro do anno de 1882 que o município de Sant’Anna soltou o seu primeiro echo. - É a casa da Typhographia, onde, quatro vezes por mez se imprimia o nosso jornal – Município de Sant’Anna -, tão modesto quão despretensioso na sua existência". (...) (O Município de sant’Anna, página 190, 1º parágrafo)
"Aproximemo-nos um pouco: eis a Rua 28 de setembro que remarca a memorável data das mais sublimes das nossas leis! Aqui começa a iluminação da cidade; os seus combustores de um lado e d’outro o indicão; entremos n’ella: No logar desta casa, que hoje pertence a José Sabino da Costa, existiu, segundo a tradicção, o curral da primeira fazenda de gados que se estabeleceu nesta terra; e alli na esquina, no logar em que se ergue aquelle vistoso sobrado, construído pelo coronel Manoel da Frota de Maria, morava no anno de 1735, em uma casinha de taipa, o segundo possuidor dessa Fazenda, - o padre Antônio dos Santos da Silveira, - venerando fundador da Capella de Sant’Anna, hoje transformada naquella que é a nossa Matriz; e aqui n’esta outra esquina cuja denominação de – travessa dos martyrios, - allude ao maior dos atentados que em seus dias esta cidade podia presenciar, foi onde se celebrou a primeira festa popular do município a 10 de agosto de 1739, por occazião do bemzimento da Capella, a que nos referimos".( O Município de Sant’Anna, página 190, 3º parágrafo)
“Deste ponto observa-se quase toda a praça da Matriz. Esta rua que segue à direita, é dedicada ao major José Ferreira da Costa; e a que se lhe atravessa na extremidade, descrevendo uma linha curva, paralella a do rio, e termina alli, naquella casa de parapeito pertencente a D. Maria da Graça, foi destinada a eternisar o nome do padre Silveira, como tributo de veneração às suas cinzas.” O Município de sant’Anna, página 191, 3º parágrafo)
“Sigamos por esta rua tributada ao Coronel Menescal, e vamos apreciando as frondosas árvores que povoão a nossa praça... Aquele becco, que temos em frente, vai dar ao rio; e aqui onde chegamos; e aqui onde chagamos, entre este estabelecimento do negociante coronel Vicente Sabino Maria da Costa e a sua casa de morada do lado opposto, começa a praça do do tenente coronel Manoel Joaquim. De forma triangular, arborisada, combustores para iluminação, esta praça é o coração da cidade; visitemo-la.” (O Município de sant’Anna, página 192, 1º parágrafo)
"Do centro podemos bem observá-la: frondosos Tamarinos e lindas carnahubeiras arborisão – na, três ruas a encerrão. Ao sul alarga-se bastante em relação a sua extremidade norte, e abre-se em quatro vias de communicação com o resto da cidade; essa ponte deita para o bairro de São João, e aquelle becco, ao poente, para o rio; alli começa a rua 7 de Setembro que se estende até a cadeia, que lá está alvejando na extremidade, e aqui, a leste, a rua da viação. Entremos nella, vamos aspirar seu frescor. Bem espaçosa e extensa é esta rua, Ella corre nos fundos da do Coronel Menesca; este becco é da travessa dos Martyrios, Ella segue, lá está o seu termo; mas daqui sigamos pela Rua do Oriente que estende ao sul na direcção deste becco. Nesta rua, cuja frente deita para o poente só há um quarteirão; aqui termina Ella. Continuemos ao poente pela rua da Bôa Vista". (O Município de sant’Anna, página 192, 2º parágrafo)
“O terreno desocupado que vemos nesta linha já está reservado para edificações; esta rua pouco extensa só tem duas casas, esta de parapeito de João Ribeiro Pessoa Montenegro, e esse sobrado de esquina, do padre Francisco Theotimo de Maria Vasconcellos; Ella dá os fundos para rua da Viração; e esse grande pateo que nos fica à esquerda, arborisado no seguimento desta e da Rua 7 de setembro que se estende ao Sul, com o seu carnaubeiral que tanta graça lhe dá, está destinado para uma praça com a denominação de – Boa Vista - . O seu nome liga-se ao quadro pitoresco da natureza que daqui se descortina.” (O Município de sant’Anna, página 192, 3º parágrafo)
“Atravessemos por este espaçoso beco a rua em frente. Eis o mercado público. O seu pateo interior, quadrilátero encerra-se por quatro ruas de oito quartos cada uma; faltão – lhe apenas quatro quartos do lado do norte. Lá está a ponte que ind’agora vimos; começa daquela casa, a ultima da praça, tenente coronel Manoel Joaquim. Alli mora o nosso digno juiz de Direito Dr. Antônio Sabino do Monte.” (O Município de sant’Anna, página 193, 2º parágrafo)
“Subamos os seus degraos. Como se vê Ella descreve um ângulo obtuzo de linhas desiguaes, esta menor que aquella; e do vértice deste ângulo, no ponto em que nos achamos, descobre-se todo o bairro de São João, e para trás toda auqella praça e a rua do padre Silveira. Desde que a edificação se estenda até aqui, servindo-lhe esta parte de calçada, teremos a ponte em linha reta. – Sigamos; lá vão as linhas dos combustores da iluminação a par de outra de arvoredos que seguem ao longo das ruas por um e outro lado desta praça. Aqui sob os nossos pés estão três arcadas, as águas do rio, nas grandes enchentes, passando por ellas, formão deste lado, à esquerda, uma vasta bacia, onde à tarde, em canoas, por entre aquellas carnaubeiras, as famílias se divertem em agradáveis passeios. Essas duas ruas que avançam,com aquella que se lhe atravessa ao sul e esta que corre aos fundos da rua 7 de Setembro, na maior parte aformoseada de frentes, constituem a praça da Municipalidade”. (O Município de sant’Anna, página 193, 3º parágrafo)
“Aqui, onde começou o nível das calçadas, termina a ponte; vamos pelo meio da praça. Aquelle becco vai ter ao rio, e o sobrado da esquina pertence a D. Theodora Geracina de Andrade, viúva do tenente Francisco Leôncio de Andrade. Este prestimoso cidadão foi o primeiro negociante de seu tempo; o seu movimento comercial elevou-se a oitenta e muitos contos de réis. Haverá dose anos que falleceu, e o seu nome honrado por sua viúva, respeitado por seus dignos filhos, soa ainda em muitos corações, gratos aos seus favores e benefícios; animou o commércio e concorreu muito para o benefício desta praça. Esse magestoso calvário foi obra de Frei Guilherme, missionário Italiano, em 1871, quando aqui pregou com outros companheiros, (...)". (O Município de sant’Anna, página 193, 4º parágrafo)
A bacia a que se refere o autor de “O Município de Sant’Anna” era a conhecida lagoa da caridade que se formava nos tempos de cheia do rio Acaraú. Tal lagoa localizava-se onde hoje está a parte da Praça São João, correspondente ao Mercado Público. Sobre ela, de maneira muito poética nos fala Antônio Bezerra em seu livro notas de viagem:
"Na estação invernosa o rio alaga a planície, e deita as águas além dos últimos degraus do mercado na parte ocidental; e então é belo contemplar a multidão de canoas transportando famílias que em doce recreação passeiam por dentro da cidade.
Pelas noites de luar dizem que é magnífico aquele passatempo, em que não raras vezes a voz melancólica de algum dilletante a gemer suas saudades atrai ao balcão da janela o vulto misterioso de um anjo cismador".
É preciso ter lido Alfred de Musset para avaliar o que são esses deliciosos devaneios de Tizianelo e Beatriz Loredano, que se enleiam no mesmo afeto ao resvalar sutil de uma gôndola nas águas da Riva dei Schiavoni em Veneza".
Suprimimos a ultima parte do parágrafo acima transcrito porque o utilizaremos mais adiante quando tratarmos d prédio da Casa de Câmara onde está situada a prefeitura Municipal.
Concluímos que a descrição refere-se a esta data porque, como veremos mais adiante, ao fazer referência ao sobrado do comerciante Francisco Leôncio de Andrade, o autor do supracitado livro diz que o mesmo já falecera há doze anos.
Padre Sadoc Araújo em sua Cronologia Sobralense afirma que o dito comerciante faleceu em 1872. Se, portanto, somarmos o ano de falecimento do referido senhor, com a quantidade supracitada teremos o ano a que nos referimos.
Vejamos o que diz a célebre coleção de folhetins.
Segunda a mesma, na época, a cidade: (...). "Divide-se em dois bairros – de S. Anna e S. João – os quaes se acham ligados por uma ponte de sólida construcção que mede 106 metros de comprimento sobre 3 de largura, aberta no centro de 3 arcadas, que proporcionam espaçoso e livre trânsito". (O Município de sant’Anna, página 189, 1º parágrafo)
"Eis-nos chegados, caros leitores, às portas da cidade. Comecemos o nosso passeio pelo bairro de Sant’Anna. A primeira rua, que vemos, denomina-se Humaytá; a sua linha curva segue outra de arvoredos; e alli; naquella casa de apparencia risonha, defronte daquela frondosa cana – fistula, está o Santuário de Guttemberg. Vejamos o que nos diz a sua inscripção: - Foi no dia 10 de Fevereiro do anno de 1882 que o município de Sant’Anna soltou o seu primeiro echo. - É a casa da Typhographia, onde, quatro vezes por mez se imprimia o nosso jornal – Município de Sant’Anna -, tão modesto quão despretensioso na sua existência". (...) (O Município de sant’Anna, página 190, 1º parágrafo)
"Aproximemo-nos um pouco: eis a Rua 28 de setembro que remarca a memorável data das mais sublimes das nossas leis! Aqui começa a iluminação da cidade; os seus combustores de um lado e d’outro o indicão; entremos n’ella: No logar desta casa, que hoje pertence a José Sabino da Costa, existiu, segundo a tradicção, o curral da primeira fazenda de gados que se estabeleceu nesta terra; e alli na esquina, no logar em que se ergue aquelle vistoso sobrado, construído pelo coronel Manoel da Frota de Maria, morava no anno de 1735, em uma casinha de taipa, o segundo possuidor dessa Fazenda, - o padre Antônio dos Santos da Silveira, - venerando fundador da Capella de Sant’Anna, hoje transformada naquella que é a nossa Matriz; e aqui n’esta outra esquina cuja denominação de – travessa dos martyrios, - allude ao maior dos atentados que em seus dias esta cidade podia presenciar, foi onde se celebrou a primeira festa popular do município a 10 de agosto de 1739, por occazião do bemzimento da Capella, a que nos referimos".( O Município de Sant’Anna, página 190, 3º parágrafo)
“Deste ponto observa-se quase toda a praça da Matriz. Esta rua que segue à direita, é dedicada ao major José Ferreira da Costa; e a que se lhe atravessa na extremidade, descrevendo uma linha curva, paralella a do rio, e termina alli, naquella casa de parapeito pertencente a D. Maria da Graça, foi destinada a eternisar o nome do padre Silveira, como tributo de veneração às suas cinzas.” O Município de sant’Anna, página 191, 3º parágrafo)
“Sigamos por esta rua tributada ao Coronel Menescal, e vamos apreciando as frondosas árvores que povoão a nossa praça... Aquele becco, que temos em frente, vai dar ao rio; e aqui onde chegamos; e aqui onde chagamos, entre este estabelecimento do negociante coronel Vicente Sabino Maria da Costa e a sua casa de morada do lado opposto, começa a praça do do tenente coronel Manoel Joaquim. De forma triangular, arborisada, combustores para iluminação, esta praça é o coração da cidade; visitemo-la.” (O Município de sant’Anna, página 192, 1º parágrafo)
"Do centro podemos bem observá-la: frondosos Tamarinos e lindas carnahubeiras arborisão – na, três ruas a encerrão. Ao sul alarga-se bastante em relação a sua extremidade norte, e abre-se em quatro vias de communicação com o resto da cidade; essa ponte deita para o bairro de São João, e aquelle becco, ao poente, para o rio; alli começa a rua 7 de Setembro que se estende até a cadeia, que lá está alvejando na extremidade, e aqui, a leste, a rua da viação. Entremos nella, vamos aspirar seu frescor. Bem espaçosa e extensa é esta rua, Ella corre nos fundos da do Coronel Menesca; este becco é da travessa dos Martyrios, Ella segue, lá está o seu termo; mas daqui sigamos pela Rua do Oriente que estende ao sul na direcção deste becco. Nesta rua, cuja frente deita para o poente só há um quarteirão; aqui termina Ella. Continuemos ao poente pela rua da Bôa Vista". (O Município de sant’Anna, página 192, 2º parágrafo)
“O terreno desocupado que vemos nesta linha já está reservado para edificações; esta rua pouco extensa só tem duas casas, esta de parapeito de João Ribeiro Pessoa Montenegro, e esse sobrado de esquina, do padre Francisco Theotimo de Maria Vasconcellos; Ella dá os fundos para rua da Viração; e esse grande pateo que nos fica à esquerda, arborisado no seguimento desta e da Rua 7 de setembro que se estende ao Sul, com o seu carnaubeiral que tanta graça lhe dá, está destinado para uma praça com a denominação de – Boa Vista - . O seu nome liga-se ao quadro pitoresco da natureza que daqui se descortina.” (O Município de sant’Anna, página 192, 3º parágrafo)
“Atravessemos por este espaçoso beco a rua em frente. Eis o mercado público. O seu pateo interior, quadrilátero encerra-se por quatro ruas de oito quartos cada uma; faltão – lhe apenas quatro quartos do lado do norte. Lá está a ponte que ind’agora vimos; começa daquela casa, a ultima da praça, tenente coronel Manoel Joaquim. Alli mora o nosso digno juiz de Direito Dr. Antônio Sabino do Monte.” (O Município de sant’Anna, página 193, 2º parágrafo)
“Subamos os seus degraos. Como se vê Ella descreve um ângulo obtuzo de linhas desiguaes, esta menor que aquella; e do vértice deste ângulo, no ponto em que nos achamos, descobre-se todo o bairro de São João, e para trás toda auqella praça e a rua do padre Silveira. Desde que a edificação se estenda até aqui, servindo-lhe esta parte de calçada, teremos a ponte em linha reta. – Sigamos; lá vão as linhas dos combustores da iluminação a par de outra de arvoredos que seguem ao longo das ruas por um e outro lado desta praça. Aqui sob os nossos pés estão três arcadas, as águas do rio, nas grandes enchentes, passando por ellas, formão deste lado, à esquerda, uma vasta bacia, onde à tarde, em canoas, por entre aquellas carnaubeiras, as famílias se divertem em agradáveis passeios. Essas duas ruas que avançam,com aquella que se lhe atravessa ao sul e esta que corre aos fundos da rua 7 de Setembro, na maior parte aformoseada de frentes, constituem a praça da Municipalidade”. (O Município de sant’Anna, página 193, 3º parágrafo)
“Aqui, onde começou o nível das calçadas, termina a ponte; vamos pelo meio da praça. Aquelle becco vai ter ao rio, e o sobrado da esquina pertence a D. Theodora Geracina de Andrade, viúva do tenente Francisco Leôncio de Andrade. Este prestimoso cidadão foi o primeiro negociante de seu tempo; o seu movimento comercial elevou-se a oitenta e muitos contos de réis. Haverá dose anos que falleceu, e o seu nome honrado por sua viúva, respeitado por seus dignos filhos, soa ainda em muitos corações, gratos aos seus favores e benefícios; animou o commércio e concorreu muito para o benefício desta praça. Esse magestoso calvário foi obra de Frei Guilherme, missionário Italiano, em 1871, quando aqui pregou com outros companheiros, (...)". (O Município de sant’Anna, página 193, 4º parágrafo)
A bacia a que se refere o autor de “O Município de Sant’Anna” era a conhecida lagoa da caridade que se formava nos tempos de cheia do rio Acaraú. Tal lagoa localizava-se onde hoje está a parte da Praça São João, correspondente ao Mercado Público. Sobre ela, de maneira muito poética nos fala Antônio Bezerra em seu livro notas de viagem:
"Na estação invernosa o rio alaga a planície, e deita as águas além dos últimos degraus do mercado na parte ocidental; e então é belo contemplar a multidão de canoas transportando famílias que em doce recreação passeiam por dentro da cidade.
Pelas noites de luar dizem que é magnífico aquele passatempo, em que não raras vezes a voz melancólica de algum dilletante a gemer suas saudades atrai ao balcão da janela o vulto misterioso de um anjo cismador".
É preciso ter lido Alfred de Musset para avaliar o que são esses deliciosos devaneios de Tizianelo e Beatriz Loredano, que se enleiam no mesmo afeto ao resvalar sutil de uma gôndola nas águas da Riva dei Schiavoni em Veneza".
Suprimimos a ultima parte do parágrafo acima transcrito porque o utilizaremos mais adiante quando tratarmos d prédio da Casa de Câmara onde está situada a prefeitura Municipal.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
URGENTE CONVOCAÇÃO E MOBLIZAÇÃO
CAROS AMIGOS QUE ACESSAM ESTE BLOG
AS OBRAS QUE ESTÃO DESCARACTERIZANDO A CADEIA PÚBLICA DE SANTANA DO ACARAÚ,EDIFÍCIO HISTÓRICO DO QUAL JÁ FALAMOS EM ARTIGO ANTERIOR, CONTINUAM.
EMBORA SABENDO QUE CERTAS OBRAS SÃO NECESSÁRIAS PARA QUE OS DETENTOS NÃO VIVAM EM CONDIÇÕES DESUMANAS NAQUELE LUGAR, NÃO CONCORDAMOS COM A DESCARACTERIZAÇÃO E COM A POSTURA AUTORITÁRIA DO GOVERNO DO ESTADO QUE NÃO LEVOU EM CONSIDERAÇÃO O ASPECTO HISTÓRICO DO EDIFÍCIO.
POR ESTA RAZÃO ESTOU CONVOCANDO A TODOS QUE LEREM ESTE ARTIGO A ACESSAR O SITE DO GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁ E PROTOCOLAR UMA RECLAMAÇÃO NO SERVIÇO DE OUVIDORIA ON -LINE:http://sou.cge.ce.gov.br/publico/Inicial.aspx
ACREDITAMOS QUE UM NÚMERO GRANDE DE RECLAMAÇÕES PODERÁ CHAMAR ATENÇÃO DA SECULT E DAS SECRETARIAS ENVOLVIDAS NA OBRA.
AS OBRAS QUE ESTÃO DESCARACTERIZANDO A CADEIA PÚBLICA DE SANTANA DO ACARAÚ,EDIFÍCIO HISTÓRICO DO QUAL JÁ FALAMOS EM ARTIGO ANTERIOR, CONTINUAM.
EMBORA SABENDO QUE CERTAS OBRAS SÃO NECESSÁRIAS PARA QUE OS DETENTOS NÃO VIVAM EM CONDIÇÕES DESUMANAS NAQUELE LUGAR, NÃO CONCORDAMOS COM A DESCARACTERIZAÇÃO E COM A POSTURA AUTORITÁRIA DO GOVERNO DO ESTADO QUE NÃO LEVOU EM CONSIDERAÇÃO O ASPECTO HISTÓRICO DO EDIFÍCIO.
POR ESTA RAZÃO ESTOU CONVOCANDO A TODOS QUE LEREM ESTE ARTIGO A ACESSAR O SITE DO GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁ E PROTOCOLAR UMA RECLAMAÇÃO NO SERVIÇO DE OUVIDORIA ON -LINE:http://sou.cge.ce.gov.br/publico/Inicial.aspx
ACREDITAMOS QUE UM NÚMERO GRANDE DE RECLAMAÇÕES PODERÁ CHAMAR ATENÇÃO DA SECULT E DAS SECRETARIAS ENVOLVIDAS NA OBRA.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
INSCRIÇÕES RUPESTRES DO SERROTE DA ROLA - SANTANA DO ACARAÚ - CE
Em 1893, João Franklin de Alencar Nogueira, membro do Instituto Histórico e Geografico Brasileiro(IHGB), publicou em artigo da revista do referido instituto o relato de uma visita feita ao sítio do Serrote da Rola, em Santana do Acaraú onde existem ainda hoje inscrições rupestres.
Conversando com os moradores do lugar, ouviu relatos de que no referido Serrote existiam muitos locais com inscrições rupestres. Contudo,só foi possível a João Franklin visitar as que ficam em uma gruta que os nativos da época chamavam de Casa de Pedra.
Ao lugar, hoje conhecido como pedra do letreiro,chega-se por um caminho que, embora de acesso relativamente fácil, oferece a quem o visita uma prova a resistência física e ao fôlego.
As inscrições rupestres deste sítio estão em um paredão no qual está encravada uma pedra com formato semelhante a torre de uma igreja ou ao telhado de certas casas, com um formato triangular,de laterais que são duas escadas naturais de pedra, utlizadas inclusive pelos autores das inscrições para realizar as "pinturas" situadas no topo do paredão.
Este paredão é protegido das chuvas e da incidência direta do sol por uma marquise natural: uma dobra do próprio paredão sobre si mesmo em seu cume.
Estas carcterísticas levaram os habitantes do serrote na época a batizar o local de casa de pedra.
Embora a existência de outras inscrições tenha sido citada no texto de João Franklin, ainda hoje não se conhece outro local do Serrote da Rola que tenha inscrições rupestres.CAMINHO QUE DÁ ACESSO AS INSCRIÇÕES RUPESTRES DO SERROTA DA ROLA, SANTANA DO ACARAÚ - CE
CAMINHO QUE DÁ ACESSO AS INSCRIÇÕES RUPESTRES DO SERROTA DA ROLA, SANTANA DO ACARAÚ - CE
No dia 1º de abril de 2010, o sítio das inscrições rupestres do serrote da Rola recebeu a visita de prospecção da Doutora em Arqueologia Marcélia Marques (UECE).
A mesma constatou,às primeiras observações do local, que as inscrições sofrem degradação por fortes intemperismos físicos, químicos e biológicos,e pelas inúmeras pichações já presentes no local.
Observou também que o padrão das inscrições é muito semelhante ao de inscrições que estudou no Cariri, sobretudo os carimbos de mão e os traços feitos na parede com o deslizar das pontas dos dedos tingidos. Tal fato foi também observado anos antes por João franklin em 1893.
Uma parte ainda não inundada do açude Carnaúbas é outro lugar de Santana do acaraú onde existem inscrições rupestres. Contudo, o sítio ainda precisa ser melhor explorado para que possamos fornecer maiores dados a respeito delas.
Tanto as inscrições do Serrote da Rola quanto as do Açude Carnaúbas, necessitam de urgente atenção das autoridades do IPHAN.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
A CADEIA PÚBLICA DE SANTANA DO ACARAÚ
Construída possivelmente na época em que era presidente da Provícia do Ceará José Júlio de Albuquerque Barros( o 41º da província), a cadeia pública de Santana do Acaraú é o exemplo clássico de um prédio público que vai sendo adaptado ás necessidades de cada época, não sem muitos desafios.
Passando atualmente por uma reforma que está em fase de acabamento, cremos que está sendo restaurada para oferecer aos detentos condições mais dignas de sobrevivência do que aquelas que tivemos oportunidade de conhcer quando ali exercemos missão de evangelização:cômodos escuros, péssimas condições hidráulicas e elétricas, telhado que na estação invernosa não protegia os detentos da chuva, etc.
Contudo, a fachada até então intocada, sofreu uma grave modificação do acréscimo de portas e um trabalho de pinturas que passa longe e muito longe de uma restauração conforme se pode ver nas fotos desta postagem.
Sobre ela o autor do livro O Município de Santana fala o seguinte:
"(...). Estas duas últimas obras são também importantes; representam um só edifício, mas não tem absolutamente de uma para a outra communicação alguma. - a primeira(a cadeia) voltada para leste, ostenta na sua fachada uma perspectiva elegante: Na parte mais elevada que fica no centro, uma sacada descança sobre os capitéis de duas volumosas columnas que se erguem de um lado e de outro do portão principal acima do qual, em um semi - círculo, lê-se a inscripção - Dr. José Júlio de Albuquerque Barros - alludindo à presidencia deste, à cujo benefício bafejo se deve a sua construcção."
"Um largo corredor com dois portões de ferro, diametralmente oppostos, devide-a em duas partes iguaes: o lado direito contém três prisões distinctas, e o lado esquerdo uma só, destinda a prisões communs; e todas ellas comportões de ferro que abrem para o corredor, e janelas gradeadas que deitão para um pateo encerrado por uma alta muralha, offerecem a precisa segurança e comodidade do infeliz detento."
" A segunda(o quartel), como se vê, corre nos fundos da primeira, serve-lhe de muralha nessa parte; tem a frente Oeste, e divide-se em cinco compartimentos com as necessárias accommodações ao seu fim."
"Uma só calçada rodêa os dois edifícios ao longo da muralha que os une, alargando-se em forma de patamar à frente da Cadeia..."(O Município de Santana, páginas 197 e 198)
Antônio Bezerra, quando por aqui esteve assim relata sua visita à cadeia pública do Município de Santana:
"Visitei a cadeia pública, situada no extremo sul da cidade, quase po detrás da Casa de Caridade."
"É pequena, baixa, mas de excelente construção."
"Destaca-se ao longe por achar-se isolada na planície."
"Examinei os compartimentos, travei conversa com os encarcerados, e por ser a prisão o termômetro do atraso de um povo, lamentei de coração a sorte dos desgraçados que não tiveram os benefícios da instrução." (Antônio Bezerra, notas de Viagem, página 70).
Talvez hoje não se possa dizer algo muito diferente daquilo que afirmava o referido autor naquela época.
Sofrendo com os malefícios que as drogas trazem à cidade assitimos à morte violenta de um agente prisional a meses atrás. Quisera que nela não existissem detentos e que a velha cadeia fosse apenas um sinal de advertência ás futuras gerações de que a violência nada constrói.
VISTA LATERAL DA CADEIA: RUA JOSÉ MARIANO
VISTA LATERAL DA CADEIA: RUA JOSÉ MARIANO
QUARTEL: PLACA INDICATIVA E PLATIBANDA TRABALHADA
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
A PONTE DA LAGOA DA CARIDADE OU PONTE DO SÃO JOÃO
FOTO 1: VISTA DA LAGOA DA CARIDADE EM TEMPO DE SECA DO RIO ACARAÚ. NESTE LUGAR ESTÁ, HOJE, A PRAÇA SÃO JOÃO E Á DIREITA ESTÁ A PONTE ONDE SE PODE OBSERVAR OS ARCOS PODE ONDE PASSAVAM AS ÁGUAS DO RIO EM TEMPO DE CHEIA
Testemunha de um tempo em que a cidade tinha apenas dois bairros, a ponte do São João (como é conhecida hoje) tinha a função, na época em que foi construída de ligar os dois bairros tornando possível a travessia por sobre a Lagoa da Caridade nos tempos de cheia do rio Acaraú.
Sobre esta última fala Antônio Bezerra no seu livro Notas de Viagem:
"Na estação invernosa o rio alaga a planície, e deita as águas além dos últimos degraus do mercado da parte ocidental; e então é belo contemplar a multidão de canoas transportando famílias que em doce recreação passeiam por dentro da cidade." (Antônio Bezerra Notas de Viagem página 68)
O autor do livro O Município de Santana, partindo da antiga praça Tenete Coronel Manoel joaquim que mais tarde deu origem à Praça Padre Antõnio Tomás, assim descreve a ponte do São João:
"Sigamos; lá vão as linhas de combustores da iluminação a pár de outra de arvoredos que seguem ao longo das ruas por um e outro lado desta praça. Aqui sob os nossos pés estão três arcadas , as aguas do rio, nas grandes enchentes, passando por ellas, formão deste lado, a esquerda uma vasta bacia, onde à tarde, em canôas, por entre aquellas carnaubeiras, as famílias divertem-se em agradáveis passeios." (O Município de Santana, página 193)
A importância de sua preservação, portanto, está na possibilidade de serem contadas às novas geração estas memórias que tratam do modo como os homens transformam e são transformados pelo meio geográfico urbano.
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